A quem interessa o Paebes?

Por Nathan Moretto Guzzo Fernandes

Inspirado nas leituras e discussões sobre avaliação educacional, na disciplina de Políticas Públicas e Gestão Educacional, proponho uma reflexão sobre avaliação a partir da avaliação externa aplicada às escolas do estado do Espírito Santo, conhecida como Paebes.


O governo do ES submete as escolas do estado a uma avaliação externa, conhecida como Paebes. Esta avaliação ocorre trimestralmente e é elaborada por uma empresa terceirizada, de fora do estado, e desconsidera os diversos contextos, políticos, econômicos, sociais, religiosos, atravessados no chão da escola e os saberes produzidos no/do/com cotidiano escolar.
Nesta avaliação a mesma prova é aplicada para todos os estudantes, independente de suas singularidades e necessidades específicas. A secretaria de educação exige dos professores da rede que considerem as especificidades de cada estudante na hora de avaliar, porém, quando avalia, avalia a todos de maneira homogênea.

Este ano, acrescentou-se um valor, uma nota neste exame, que proporcionalmente aos acertos dos alunos é lançada diretamente na pauta dos professores de matemática e português, retirando dos professores dessas áreas a autonomia e o direito de avaliar integralmente seus alunos. Em caso de insucesso no exame, há a responsabilização da escola ou a culpabilização dos professores e alunos pelo 'fracasso escolar', por não alcançarem as metas de proficiência.
Fonte: https://avaliacaoeducacional.com/2017/08/19/espirito-santo-overdose-de-avaliacao-destroi-ensino/

Não há devolutiva para as escolas dos resultados dos exames aplicados. A devolutiva que há é a política de ranqueamento e classificação das escolas e de bônus pelo desempenho, reforçando lógicas meritocráticas e neoliberais, como se a escola fosse uma empresa, como se os fins da educação fossem os mesmos fins do mercado.
Quem aplica a prova são os professores das escolas que acabam perdendo momentos importantes de aula e de planejamento, tendo atribuição de fiscais de exame, atribuição que diverge das funções docentes.
O pensamento deste sistema de avaliação é óbvio: a Secretaria não confia em seus professores e prefere transferir a avaliação dos estudantes para uma empresa terceirizada, desmoralizando o magistério. Afetando toda a escola e despotencializando as práticas docentes tecidas nas escolas.
Aposto em outros caminhos, sem pedras no meio do caminho como o Paebes, onde os professores tem autonomia para avaliar, num processo democrático, onde a avaliação articularia-se aos múltiplos contextos em que os processos de aprenderensinar e os sujeitos são enredados, potencializando a diferença, entendendo avaliação como processos de investigação e momentos de movimentar o pensamento e o 'erro' como possibilidades... Nesse caminho, lanço algumas problematizações...
A overdose de avaliações em larga escala tem propiciado a melhoria da qualidade da educação?
O que é uma educação de qualidade?
A quem interessa classificar?
O que sabe quem erra?
Quanto essa política de testagens homogêneas, hierárquicas, autoritárias, classificatórias, punitivas tem atravessado práticas docentes?
Apostar na diferença não seria uma boa maneira de compor uma avaliação mais inclusiva e democrática?



Música da banda Pink Floyd - Another Brick In The Wall, comentada pelo professor Eduardo Moscon Oliveira, em sala.

Comentários

  1. Excelente reflexão Nathan! Apesar de eu não possuir muito conhecimento a respeito desta avaliação, me incomodou muito saber que uma avaliação externa tenha esse tipo de interferência na nota atribuída ao aluno, por entender que as práticas em sala de aula, incluindo as avaliações, são muito particulares e próprias de cada docente. Se não há devolutiva para as escolas a respeito dos resultados, não é coerente que o exame tenha tamanha interferência junto aos alunos e educadores. O que me leva a refletir exatamente sobre suas problematizações: avaliação para que? para quem? servindo a que interesses?

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  2. Verdade Nathan... Muitas vezes estamos tão acostumados com as inúmeras avaliações externas que têm, cada vez mais, se inserido nos calendários letivos que não problematizamos e refletimos sobre o real intuito de cada uma. E o impacto da aplicação dessas avaliações é muito grande na rotina escolar. Portanto tem que ter um retorno na mesma proporção - ou maior - para a unidade.

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  3. A política educacional do Governo do Espirito Santo é feita baseada no imaginário. Escola imaginária, professor imaginário e aluno imaginário. Acredito que as avaliações dos alunos devem ser feitas relacionadas ao trabalho ocorrido dentro da escola; algo externo vai além do que trabalhamos em sala. A palavra é ABERRAÇÃO... O que determina a qualidade?

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  4. Bem lembrado Jéssica. Acredito que modelos externos e padronizados não conseguem ter a dimensão com a clareza suficiente das especificidades e necessidades próprias de cada escola e de cada turma. O professor, que está inserido diretamente na realidade de cada turma, está ao meu ver muito mais apto a avalia-la, de forma mais concreta e aproximada com a realidade da aprendizagem desses alunos. Mas também acredito que esse é um importante passo: questionar!

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  5. Excelente problematização!
    Mais um questionamento a partir dessas discussões: O que temos em nossas escolas hoje: Monitoramento ou Avaliação?

    O que chamamos de avaliação hoje em nossas escolas é, na verdade, um monitoramento.
    * Monitoramento – índices, números, quantitativo, classificatório.
    * Avaliação – processual, crítica, qualitativa, investigativa.
    Tendência em reduzir a noção de qualidade ao desempenho de alunos em testes – instrumento de controle do trabalho escolar – fortalecimento da meritocracia (SOUSA, 2014).

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  6. As questões levantadas são muito pertinentes! A avaliação do trabalho docente e dos processos de ensino e aprendizagem são importantes, para planejamento de ações pedagógicas efetivas que assegurem o acesso ao currículo para todos os estudantes. Porém, se minimizada a este tipo de proposta, seguindo a lógica competitiva do mercado, sem considerar as singularidades dos estudantes e os diferentes contextos escolares, pouco avançamos para a valorização do trabalho docente e para o fortalecimento da Educação. Este formato de avaliação pode ser considerada uma arma perigosa para o fortalecimento das desigualdades sociais...muito lastimável.

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