Sobrevivência dos Vaga-Lumes [Cap. II]
O livro
proposto aborda uma reflexão extremamente interessante quando compara a
luminosidade liberada pelos vaga-lumes – que inspiraram a obra – com a luz que
o pensamento crítico representa. A escuridão observada pelo jovem Pier Paolo
Pasolini, em 1941 e os lampejos emanados por esse singular inseto, outrora sem
“holofotes”, nos fazem repensar nossas concepções sobre o cenário atual -
envolvendo-se todos os segmentos da esfera social. Através do cenário político
vivenciado durante sua vida, Pasolini, através de ricas metáforas produz um
material que brinca com a luz e a escuridão, situando-as no espaço de
descobertas e redescobertas quanto ao período histórico do contexto.
No Capítulo II, propositalmente intitulado “Sobrevivências” é questionado se os vaga-lumes realmente desapareceram... Seria nossa culpa? Não mais procurar ver a luz e, em caso de seu desaparecimento, procurá-la incansavelmente até obter novamente seu favor de clarão? Como podemos transpor essa metáfora para nossos dias? Seria o conformismo exacerbado diante do que vivemos? Por que não irmos à luta? Escuridão lembra descanso, repouso. Seria essa a intenção de quem nos induz a ela?
Mas os vaga-lumes também reapareceram, movimentando-se em torno das folhagens, tímidos com seu retorno... “Cada um conta onde e quando os viram [...]. Beleza inesperada e no entanto tão modesta”. Estes foram corajosos e lutaram pelo o quê acreditavam. Voltaram a emanar a sua luz e contagiar o ambiente em que estavam. Eles formaram uma comunidade, são unidos... E pelo público foram admirados!
O texto também promove uma reflexão crítica ao afirmar que “a poluição faz com que os vaga-lumes morram e a iluminação artificial os perturba”. Mera coincidência com os dias de hoje? Nós, reféns, das luzes emitidas pela tecnologia e que morremos para os que estão a nossa volta e a nossa vida passa e não vemos?
Luz x Trevas... Tantas relações podem aqui ser estabelecidas! Para nosso protagonista (e também para nós leitores – podendo ter outras inúmeras interpretações), as trevas são os políticos corruptos que nos levam a escuridão e a luz a fuga constante do pensar-ser-agir...
Por fim, para conhecer esses seres de luz é preciso observá-los no presente da sua sobrevivência (de nada adianta vê-los mortos, perde-se toda a magia de sua existência). É preciso cerca de cinco mil vaga-lumes para produzir uma luz equivalente à de uma única vela. Isso não diminui o seu valor, pelo contrário, ilustra a raridade e relevância da existência de cada um.
Pasolini, em 1975 teria se imobilizado em uma espécie de luto, de desespero político acreditando ter constatado o irremediável desaparecimento dos vaga-lumes. Seu desespero político foi o questionamento “se as criaturas humanas de nossas sociedades contemporâneas, como os vaga-lumes, teriam sido vencidas, aniquiladas, alfinetadas ou dessecadas sob a luz artificial dos projetores, sob o olho pan-óptico das câmaras de vigilância, sob a agitação mortífera das telas de televisão? “Não existem mais seres humanos”. Aos olhos de Pasolini, não há mais sinais a trocar. Não conversamos mais uns com os outros. O outro não nos interessa...
Os lampejos de esperança foram trocados pela inocência condenada a morte.
Não foram os vaga-lumes que foram destruídos e sim o desejo na esperança política. Princípio da esperança, luz fraca, deslocando lentamente. Ainda tem jeito! Temos que ser luz, sejamos vaga-lumes como os colegas já pontuaram!
Por isso sobrevivência(s) foi um título tão feliz para esse segundo capítulo que pode ilustrar como primeiro nas nossas vidas, em um misto de desejo e ansiedade por mudança da barbárie que vivenciamos.
“A dança viva dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas”. Sejamos a diferença!
No Capítulo II, propositalmente intitulado “Sobrevivências” é questionado se os vaga-lumes realmente desapareceram... Seria nossa culpa? Não mais procurar ver a luz e, em caso de seu desaparecimento, procurá-la incansavelmente até obter novamente seu favor de clarão? Como podemos transpor essa metáfora para nossos dias? Seria o conformismo exacerbado diante do que vivemos? Por que não irmos à luta? Escuridão lembra descanso, repouso. Seria essa a intenção de quem nos induz a ela?
Mas os vaga-lumes também reapareceram, movimentando-se em torno das folhagens, tímidos com seu retorno... “Cada um conta onde e quando os viram [...]. Beleza inesperada e no entanto tão modesta”. Estes foram corajosos e lutaram pelo o quê acreditavam. Voltaram a emanar a sua luz e contagiar o ambiente em que estavam. Eles formaram uma comunidade, são unidos... E pelo público foram admirados!
O texto também promove uma reflexão crítica ao afirmar que “a poluição faz com que os vaga-lumes morram e a iluminação artificial os perturba”. Mera coincidência com os dias de hoje? Nós, reféns, das luzes emitidas pela tecnologia e que morremos para os que estão a nossa volta e a nossa vida passa e não vemos?
Luz x Trevas... Tantas relações podem aqui ser estabelecidas! Para nosso protagonista (e também para nós leitores – podendo ter outras inúmeras interpretações), as trevas são os políticos corruptos que nos levam a escuridão e a luz a fuga constante do pensar-ser-agir...
Por fim, para conhecer esses seres de luz é preciso observá-los no presente da sua sobrevivência (de nada adianta vê-los mortos, perde-se toda a magia de sua existência). É preciso cerca de cinco mil vaga-lumes para produzir uma luz equivalente à de uma única vela. Isso não diminui o seu valor, pelo contrário, ilustra a raridade e relevância da existência de cada um.
Pasolini, em 1975 teria se imobilizado em uma espécie de luto, de desespero político acreditando ter constatado o irremediável desaparecimento dos vaga-lumes. Seu desespero político foi o questionamento “se as criaturas humanas de nossas sociedades contemporâneas, como os vaga-lumes, teriam sido vencidas, aniquiladas, alfinetadas ou dessecadas sob a luz artificial dos projetores, sob o olho pan-óptico das câmaras de vigilância, sob a agitação mortífera das telas de televisão? “Não existem mais seres humanos”. Aos olhos de Pasolini, não há mais sinais a trocar. Não conversamos mais uns com os outros. O outro não nos interessa...
Os lampejos de esperança foram trocados pela inocência condenada a morte.
Não foram os vaga-lumes que foram destruídos e sim o desejo na esperança política. Princípio da esperança, luz fraca, deslocando lentamente. Ainda tem jeito! Temos que ser luz, sejamos vaga-lumes como os colegas já pontuaram!
Por isso sobrevivência(s) foi um título tão feliz para esse segundo capítulo que pode ilustrar como primeiro nas nossas vidas, em um misto de desejo e ansiedade por mudança da barbárie que vivenciamos.
“A dança viva dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas”. Sejamos a diferença!
Ao
batizarmos o blog de “pirilampos” nos movimentamos enquanto grupo em busca da
luz que só o conhecimento pode oferecer, assim como alguns colegas já
mencionaram... Nos compararmos aos vaga-lumes inspiradores do escritor francês
Georges Didi-Huberman, somente nos relembra da responsabilidade do nosso papel
de educador e como podemos transformar a sociedade em que vivemos! Não sei
vocês, mas nunca mais verei um vaga-lume com os mesmos olhos! Que “bichinho”
cheio de significados!
Para continuarmos a nossa reflexão, fica a charge do escritor Benett, postada no Blog do Guará, em 14 de janeiro deste ano e que também pode ser visualizada no link: http://www.seuguara.com.br/2017/01/luz-e-trevas-no-mundo-da-politica.html
Para continuarmos a nossa reflexão, fica a charge do escritor Benett, postada no Blog do Guará, em 14 de janeiro deste ano e que também pode ser visualizada no link: http://www.seuguara.com.br/2017/01/luz-e-trevas-no-mundo-da-politica.html
Boa reflexão colegas!
Por Mariana Estevam

O desafio é resistir as luzes ofuscantes do poder político, da mídia e do mercado de consumo, como defini o autor do livro. É preciso romper com as mordaças. Fazer-se ser constituído.
ResponderExcluirExcelente abordagem Mariana, e a imagem fala por si só. Maravilhosos nossos encontros e trocas de conhecimento.
ResponderExcluirEstá sendo enriquecedor para mim também colega! É muito interessante observar como, através de um mesmo material, cada um analisa sob uma perspectiva... Assim vamos construindo, criando, sendo...
ExcluirAchei esse capítulo muito interessante e me fez lembrar de outros autores que criticam esse "excesso de informação" do mundo moderno que faz com que “Não existam mais seres humanos”, como diz Pasolini. Dois dos autores que vieram na memória foram Larrossa e Benjamin. O primeiro nos alerta que por falta de tempo, o homem moderno está fadado a não perpetuar as suas experiências e sabedorias, pois nós não nos comunicamos e consequentemente, as nossas tradições não serão passadas adiante pela via da narração, pois o papel da oralidade como via de transmissão de saberes foi secundarizada, nesses tempos de veiculação rápida de um grande volume de informação. Corroborando dessa perspectiva, Larrossa diz:
ResponderExcluir"O sujeito moderno (...) é alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados."
Acredito que, além de sermos expostos a um grande volume de informações, nossa cultura nos impele a termos sempre alguma opinião sobre os fatos, ainda que elaborada prematuramente. Vejam as redes sociais!! Temos "tudólogos", que, de um dia para o outro, são especialistas em política, medicina, biologia, ciências sociais etc. Na minha opinião, essas pessoas acham que basta ler um texto do google para seres experts no assunto.
Sem dúvidas, discussões e reflexões são extremamente necessárias para a construção crítica de uma opinião. E isso está cada vez mais raro hoje em dia.
A fala de Pasolini, “Não existem mais seres humanos”, e o comentário acima da colega Mariana, me fizeram refletir sobre o artigo "Sabe a empatia? Pulou da ponte hoje", que veiculou recentemente em jornais e redes sociais. O artigo problematiza a questão do respeito - ou seria a falta de? - em relação à vida do outro e da ausência de limites da sociedade atual em relação a essa necessidade quase dilacerante de emitir opinião sobre tudo e sobre todos.
ResponderExcluirExtremamente crítico, atual e angustiante, deixo aqui o link para acesso ao texto:
http://www.gazetaonline.com.br/opiniao/artigos/2017/07/sabe-a-empatia-pulou-da-ponte-hoje-1014081954.html
Realmente muito angustiante Roberta! As pessoas estão esquecendo que são humanas... e, definitivamente, deixaram de lado todo o amor pelo próximo.
ExcluirO ser humano em toda historia luta por sobrevivência, desde a época das cavernas até a contemporaneidade. A sobrevivência efetivamente se traduz em trabalho com remuneração para financiar bens como saúde, educação, habitação entre outros fatores. Significa, na verdade, continuar lutando pra sobreviver, porém com parâmetros diferentes.
ResponderExcluirMudanças na lógica de homogeneização da classe dominante acontecem principalmente nos meios acadêmicos, mas deve haver expansão efetiva dessas ações, porque mesmo com toda mudança de pensamentos, velhos hábitos ainda persistem em ambientes de trabalho, a má remuneração, abuso de poder dos ocupantes de chefia, que levam o trabalho a se tornar apenas uma fonte de sobrevivência, desaparecendo a motivação e realização profissional.
Somos seres inacabados, a cada dia acrescentamos alguma experiência em nossas vidas que nos fazem ressignificar nossos conhecimentos e atitudes. Mas infelizmente temos visto que as pessoas estão numa vida tão acelerada, na busca de prestígio e dinheiro, que se tem conformado com a escuridão do outro. Por vezes até se entristece, mas nada faz para mudar essa história. Finge se importar com o outro enquanto ele aceita essa luz artificial e de pouca duração.
ResponderExcluirPrecisamos romper com a conformidade e assumir nossa postura de educadores, possibilitando aos alunos que caminhem com os próprios pés e descubram seu próprio brilho. Na nossa inconclusão devemos nos colocar num movimento de constante busca, transformação e renovação. Ver o outro com suas especificidades, potencialidades e sua bagagem histórica, cultural e emocional, proporcionando-o condições de caminhar sozinho e de construir seu próprio percurso, descobrindo sua luz própria e iluminando todos em seu caminho.
No capítulo 2, intitulado "Sobrevivências", escritor francês Georges Didi-Huberman questiona se, de fato, os vaga-lumes desapareceram e nos pergunta para onde. Entretanto não é a refutação do suposto sumiço dos vaga-lumes que motiva a escrita de Didi-Huberman. Em realidade ele procura se afastar de certa leitura dos escritos de Walter Benjamin sobre a condição da experiência na modernidade. O autor cita o desespero político de Pasolini em 1975 quando questiona: “as criaturas humanas de nossas sociedades contemporâneas, como os vaga-lumes, teriam sido vencidas, aniquiladas, alfinetadas ou dessecadas sob a luz artificial dos projetores, sob o olho pan-óptico das câmaras de vigilância, sob a agitação mortífera das telas de televisão?" Com isso, nos leva a refletir se, diante da atual conjuntura política de nosso país não estamos vivenciando de tal maneira a apatia que nos abateu, entendendo de que modo a mídia manipula nossas ações, das mais reacionárias às mais polidas e o quanto a censura promovida pela vida moderna nos impede de manifestar nossos desejos, sonhos e inquietudes.
ResponderExcluirEste capítulo nos trás à lembrança, muito sensivelmente, a recordação de pirilampos e vaga-lumes que nos ensinaram recentemente modos de resistência que se tornaram verdadeiras aulas públicas de construção coletiva de luta. Em 2015 os secundaristas de São Paulo ocuparam centenas de escolas, impondo naquele momento uma derrota ao governo Alckimin. Esse movimento inspirou estudantes de todo o país, que ocuparam mais de mil instituições de ensino em 2016 e estiveram na linha de frente na luta contra os ataques do governo golpista e dos governos estaduais. Aqui no ES havia vaga-lumes espalhados por toda a parte, que brilhavam com a arte que desenvolviam nas escolas ocupadas, nas entrevistas que concediam, no movimento de resistência que impetravam contra as arbitrariedades do governador Paulo Hartung, dividindo lutas, medos, momentos difíceis, escassês de suprimentos, etc... De repente surgiu um vaga-lume muito iluminado, dotado de acúmulo e sentimento chamado Ana Júlia e que fez uso da tribuna da Assembléia legislativa do estado do Paraná (aquele estado cujo governador mandou bater em professores que manifestavam por melhores condições de trabalho), para defender a legitimidade do movimento das ocupações por parte dos estudantes secundaristas. Hoje, Ana Júlia está brilhando na Índia a convite da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, juntamente com Daniel Cara - coordenador nacional da campanha na Marcha do Nobel da paz Kailash Satyarthi pelos direitos das meninas e dos meninos na índia e no mundo. vaga-lumes como Ana Júlia não estão tão acesos como estiveram durante todo o processo das ocupações. É como se o golpe tivesse atordoado à todos e a pauta conservadora que os partidos de direita tentam implementar por meio de políticas de retrocessos e desmontes tivesse apagado um pouco aquela luz e eles, assim como nós, estivessem adormecidos.
Ao encerrar este capítulo o autor nos leva a refletir porque Pasolini nos inventou o desaparecimento dos vaga-lumes, sugerindo que ele tivesse deixado de enxergá-los. Desta forma, assim como na atual conjuntura política vivenciada por todos nós, entendo que esta reflexão nos suscita a não Temer a escuridão das políticas de austeridade implementadas pelo governo ilegítimo e buscar sempre enxergar em nós e nos que por ora se calaram, a iluminação necessária para fazer frente aos desafios que nos são impostos. A sobrevivência dos vaga-lumes significa às gerações vindouras garantias constitucionais, por meio da luta e das ruas num processo de resistência contínua, do direito à vida, ao trabalho com dignidade, às políticas afirmativas, à formação humana cidadã, à democracia.
Por tudo isso, não podemos parar de brilhar!