Infâncias e produção do fracasso escolar
Após a discussão do livro "Sobrevivência dos Vaga-Lumes", de Huberman,
tivemos a oportunidade de refletir sobre nosso papel de pesquisadores/educadores, como promotores de resistências na sociedade e principalmente
no âmbito do cotidiano escolar, por isso a partir de novas leituras realizadas
em nossas aulas, a turma 1 do mestrado em educação na modalidade profissional,
considerou pertinente discutir aqui as questões relativas a infância e à
produção do fracasso escolar. O debate será realizado a partir do documentário “A
invenção da infância” de direção Liliana Silzbach, produzido no ano 2000, e das
leituras de Freitas (2006) e Patto (2015). O documentário “A invenção da
invenção” é uma perfeita ilustração do que Freitas (2006) chama de “infância
desrealizada”, caso no qual estamos diante de uma infância construída pelo
abandono, desproteção e independência da tutela do adulto, gerando como
consequência na maioria dos casos um estigma no ambiente escolar. No outro extremo
encontra-se a criança com uma “infância hiper-realizada”, sendo um protótipo do
que é considerado belo, saudável e feliz no formato de uma sociedade construída
a partir de valores neoliberais. Através do documentário é possível observar
com clareza essas “duas infâncias” materializadas na criança que se encontra no
interior do Brasil, trabalhando em condições sub-humanas em troca de uns poucos
trocados que não chegam a garantir sua sobrevivência de forma digna. Já em uma
grande cidade estão crianças que tem acesso aos mais avançados recursos
tecnológicos e uma educação privilegiada, contudo levando-nos a refletir se este
modelo de infância está livre de questionamentos. Patto (2016) ao pesquisar “A
produção do fracasso escolar” um clássico publicado na década de 80, também nos
leva a pensar estas concepções de infância e sociedade, através da leitura da
obra, compreendemos o fracasso escolar de uma ótica desfragmentada, sem a
culpabilização dos sujeitos (escola, aluno, família). Ao longo do texto temos a
medida de como o fracasso escolar é multifatorial, advindo da formação de uma
sociedade formada por valores meritocráticos e baseado em teorias científicas que ao
longo da história disseminaram preconceitos e exclusões, sendo que tais
preceitos apesar de serem amplamente discutidos há várias décadas, ainda ecoam
em discursos proferidos nos cotidianos escolares, mesmo travestidos com novas
roupagens e que muitas vezes não nos possibilitam a fuga da responsabilização
individual dos sujeitos, desresponsabilizando o Estado pelo provimento de
políticas públicas que nos deem condições de superar tal estado calamitoso. As “infâncias
desrealizadas” de Ângelas, Augustos, Nailtons e Humbertos, estão presentes na
pesquisa de Patto, no documentário de Silzbach e em nossas escolas. Cabe a nós
como pesquisadores/educadores problematizarmos:
Como podemos criar
atos de resistência diante de tal produção do fracasso escolar? de tais
infâncias desrealizadas?
Como podemos lutar
para que o Estado cumpra seu papel de mantenedor de uma sociedade justa através
das políticas públicas?
Como em nossas
escolas podemos pensar em práticas pedagógicas que sejam realmente inclusivas?
O blog está aberto para mais questionamentos e debates!
Por
Débora Nascimento de
Oliveira
E
Gabriela Menezes
Realmente, o documentário e o livro nos levam à reflexão sobre o perfil de alunos que recebemos em nossas escolas! Muitas vezes olhamos superficialmente e subjulgamos estudantes com um histórico penetrado de mazelas infindáveis e de quem cobramos ao decorrer de todo ano letivo uma postura de discente “exemplar”... Que tenhamos sensibilidade e ternura no olhar - não para nos comovermos e vitimizarmos o sujeito por quem creditaremos pena - mas ofertarmos o que lhe é por direito garantido: acesso a aprendizagem! Assim, então, poderemos criar atos de resistência diante de tal produção do fracasso escolar e de tais infâncias desrealizadas. Podemos lutar para que o Estado cumpra seu papel de mantenedor de uma sociedade justa através das políticas públicas, uma vez que enquanto educador, estejamos cientes do nosso papel, nos manifestemos, participemos das lutas em prol da causa! Que nosso discurso seja permeado pela prática e que mobilizemos o grupo do qual fazemos parte, levando uma pequena luz a cada oportunidade, ilustrando os pirilampos que somos!
ResponderExcluirA leitura da obra de Patto e o documentário apresentado são bastante ilustrativos e nos fazem refletir sobre os diversos fatores que estão por trás do fracasso escolar. Com esses exemplos, cai por terra qualquer menção ao senso comum de que o culpado pelo fracasso seria apenas o próprio aluno ou os pais que não acompanham esse aluno, ou até mesmo o professor que não sabe ensinar. O termo "fracasso escolar" resume um conjunto de "culpados". Enquanto pesquisadores, temos a desafiadora missão de tentar contribuir para o rompimento de paradigmas em prol de condições melhores e mais justas de aprendizagem, visto que esse é um direito do cidadão.
ResponderExcluirA leitura da obra de Patto nos trás a reflexão do papel da escola pública, onde a produção do fracasso escolar assume proporções inaceitáveis. Nos remete a refletir uma educação mais sensível às mazelas sociais e a ressignificar nossa prática com vistas a uma atuação que defenda o direito à educação.
ResponderExcluirTanto a obra de Patto quanto o documentário são potentes no sentido de refletirmos sobre a relevância de novos modos de pensar/fazer uma escola de fato inclusiva.Inclusiva para além do acesso e permanência...que defenda e garanta o direito de APRENDIZAGEM COM QUALIDADE a todos os estudantes.As leituras realizadas nos atravessam e conversam com o "ser pesquisador" que precisa de um " estranhamento" com relação à pesquisa mas sem perder a sensibilidade e a riqueza da minúcias nesse/desse processo.
ResponderExcluirO comentário acima foi realizado por mim,Elismar Antonio da Silva. Não sei o motivo pelo qual meu nome "desapareceu" mas penso ser os atravessamentos e influências da potente rede dialógica que temos construído" A DIMENSÃO COLETIVA DO SER...O SER RELACIONAL QUE AFETA E É AFETADO..." VIVA PAULO FREIRE,VIVA OS PIRILAMPOS!!!
ExcluirO maior desafio é romper com essa ideologia e modelo de educação pública brasileira, que em muito é um arranjo de gatilhos para reafirmação do fracasso escolar de milhares e milhares de crianças e jovens brasileiros, deixando-os sujeitos de suas "sortes sociais". A reflexão tem que passar pelo viés da busca de espaços e contextos escolares, que de fato estejam engajados na busca de escolas inclusivas, acolhedoras dessas diferenças como terrenos de possibilidades. Temos que pensar que escola precisa se tornar um local para romper com as barreiras e as veladas violências. Refletir nossas práticas que por muitas vezes são meramente intuitivas e nada conscientes, ou romper com modelos excludentes e alimentam a desigualdade. Nossa reflexão, passa pelo questionamento por: Qual nosso papel quanto a realização de uma ação emancipadora?
ResponderExcluirEfetivamente a reflexão-ação-reflexão deve ser premissa básica de todo docente, no sentido de que somente apontar as mazelas dos familiares e do sistema, intuindo que unicamente desses contextos vem as causas do fracasso escolar é um pensar simplório. Temos também enquanto educadores de pensar e repensar nossas práticas.
ExcluirMuito interessante a sugestão do documentário “A invenção da infância”, produzido em 2000, sob a direção de Liliana Silzbach, para se estabelecer pontos de contato entre as leituras de Patto (1999) e de Freitas (2006). Se analisarmos estas produções em torno de uma linha do tempo, séculos XX e XXI, vamos percebendo a lógica de reprodução das infâncias desrealizadas e hiperrealizadas, em cada uma delas. Vejamos porquê: ao que me parece, pelos depoimentos das crianças todas frequentam escola; as de um contexto do interior do Brasil, frequentam escola em um turno e em outro seguem para o trabalho árduo influenciado por suas famílias para suprirem seu próprio sustento e suas necessidades básicas, agregando-se potencial econômico; as do outro contexto, seguem suas vidas, mas "consumindo" muitas atividades e compromissos, sendo "preparadas" para a projeção de um futuro economicamente ativo e promissor, custeadas pelas suas famílias, "consumindo" cine trash e danças de conteúdos erotizados, em uma grande metrópole brasileira, permeada por suas vicissitudes. Porém, em ambas destas infâncias que os autores buscaram descrever, percebe-se que parecem estar corrompidas pelas lógicas de vida dos adultos e pela ideologia da economia e do consumo; daí, podemos indagar: "Cadê as infâncias que (supostamente) estariam aqui? Os adultos as comeram?" Trata-se de uma lógica de poder perversa com as infâncias, e como pirilampos não podemos deixar apagar os devires da infância prometida e as luzes desses pequenos vagalumes...trata-se de um compromisso ético!
ResponderExcluirPara maior entrelaçamento do tema, sugiro a leitura da obra de Phillippe Ariès, "História Social da Criança e da Família", muito oportuna para maior compreensão da construção de subjetividades da criança e da família modernas, onde se cunhou a expressão "adulto em miniatura". Outra sugestão é uma visita ao site do Conselho Federal de Psicologia, onde, além de outros temas, pode-se conhecer algumas discussões e ações relativas ao combate à erotização da infância. Fica a dica...
O texto acima foi produzido por Maria Amélia Barcellos Fraga...
ExcluirPor muito tempo o fracasso escolar é estigmado como culpa do aluno ou de sua família. Historicamente, os determinantes para tal feito eram atribuídos a fatores internos à criança. Porém, sabemos que as práticas pedagógicas exercem um papel fundamental nas questões educacionais da criança, questões estas que são poucos discutidas entre os educadores. Patto (1999) alerta para a presença de determinantes institucionais e sociais na produção desse fracasso. Dessa forma, rompe com a questão da carência cultural. A autora também retrata o mito de que crianças carentes não aprendem e que professores mal preparados ou desmotivados também são motivos dessa triste realidade escolar. Paulo Freire (1987) defende a educação como instrumento libertador do homem na condição de oprimido. O autor atribui autonomia intelectual ao ser humano para que ele deixe de ser apenas um objeto de manipulação. Partindo das leituras feitas nas aulas do colegiado de mestrado e o documentário apresentado pelas colegas, nos trás algumas concepções em que o fracasso escolar deve ser visto sob uma perspectiva de totalidade, considerando os múltiplos determinantes e que o sistema capitalista ao qual estamos inseridos é excludente e caracterizado pela exploração do homem. Há a necessidade de repensar a prática pedagógica e que os professores assumam um posicionamento político-pedagógico além de fortalecer a participação na gestão escolar num horizonte democrático.
ResponderExcluirInteressante como o fracasso escolar é produzido em nosso país. Após a leitura e debate sobre o conteúdo do livro e sobre as ideias de Maria Helena Souza Patto, fazendo um paralelo com o vídeo/documentário, podemos perceber como este fracasso se encontra atrelado à perpetuação das desigualdades econômicas e sociais, onde esta serve de “muletas” àquela.
ResponderExcluirIncrível imaginar que em um país tão rico e capaz, como o nosso, as crianças ainda morram de disenteria... que as crianças que conseguem sobreviver a tal realidade, são impossibilitadas de serem o que elas realmente são: crianças. Isso por que necessitam trabalhar para seu próprio sustento ou de sua família. Com isso, os estudos vão ficando de lado, sempre para “uma outra oportunidade”; muitos desistem de estudar; acabam, com isso, por viver à margem de quaisquer possiblidades de desenvolvimento pessoal e/ou coletivo, diminuindo, assim, suas possibilidades de serem pessoas que venham usufruir de toda a riqueza do país que elas mesmas ajudaram/ajudam a construir.
Situações como esta só veem corroborar a situação esdrúxula que um país, com tantas possibilidades, teima em submeter seus habitantes: o fracasso escolar e a perpetuação das desigualdades sociais e econômicas. É inadmissível que este país não invista em políticas públicas sérias e eficazes contra estas tristes situações que teimam em não deixar de fazer parte da vida de uma parcela considerável de brasileiros.
Fracasso escolar como tradicionalmente é conhecido carrega em si, de forma covarde e “mascarada” todo um viés meritocrático. Diante de um cenário de desigualdade de condições socioeconômicas, oportunidades de vida, acesso a informação dentre outras variáveis, atribuir o fracasso escolar ao aluno, família e professores torna-se uma simplificação desonesta de grandes problemas sociais. Não é justo exigir penalizar alunos, principalmente quando pensamos em alunos do ensino fundamental, por desempenho escolar. Aliás, o que define desempenho escolar? O que seria considerado satisfatório? Existem milhares de realidades diferentes, escolas rurais, escolas periféricas, escolas em locais em guerra ao tráfico, escolas indígenas, escolas em assentamentos, escolas onde os alunos vão buscando alimentação. O que define então o rendimento escolar satisfatório??? A educação, de maneira geral, deve ser por si um instrumento de mudança e reflexão sociais. Cabe então aos sujeitos da educação, não somente problematizar as questões relativas ao fracasso escolar, mas principalmente levar aos alunos a capacidade de questionar/compreender a sociedade em que vivemos, para que juntos possamos buscar condições igualitárias para todos.
ResponderExcluirPara enfatizar a discussão, deixo com vocês o link do videoclipe da música Another brick in the wall - Pink Floyd
https://www.youtube.com/watch?v=R14oz_ChjOM
Estamos formando mais um tijolo na parede ou estamos dando ferramentas para quebrar o muro?
Para Patto (1990), o fracasso da escola pública é o resultado de um sistema educacional congenitamente gerador de obstáculos à realização de seus objetivos. Nessa direção a escola contraria seus próprios objetivos perpetuando no contexto escolar a produção de enunciados dominantes pautados em relações hierárquicas, na segmentação e na burocratização do trabalho pedagógico. Nota-se, também, enunciados arbitrários onde a predominância de justificativas para o fracasso escolar está localizada em características bio-psico-sociais, dando, assim, sustentação para a teoria da carência cultural, engendrada pela psicologia norte-americana desde a década de 70. É necessário e urgente pensar sobre esse tipo de enunciado eugenista e seus impactos na vida dos sujeitos que compõem o espaçostempos escolares re (existindo) aos mecanismos dominantes presentes na escola e fora dela.
Excluir
ExcluirO fracasso escolar é administrado por um discurso científico que, escudado em sua competência, naturaliza esse fracasso aos olhos de todos os envolvidos no processo. Existe uma visão de famílias pobres como portadores de defeitos morais, psíquicos, justificando a ineficácia da ação pedagógica.Esta visão preconceituosa, encontra apoio nos resultados de pesquisas que fundamentam tais afirmações de uma ciência que tem como álibi uma objetividade e neutralidade.
A escola para todos exige uma grande virada na formação inicial e continuada dos professores. O simples desejo de fazer já não vale mais, é importante qe se faça educação com qualidade para que de fato haja aprendizagem. Respeitando o tempo de cada aluno, não nos prendendo aos resultados finais, mas sim no processo, no percurso trilhado pelo aluno.
Uma escola para todos de fato estará recebendo todos os alunos e oferecendo a todos um ensino de qualidade que é função principal das escolas.
A educação fundamental no Brasil é obrigatória para crianças de 4 a 17 anos e gratuita nas instituições públicas. Ainda que o acesso a esse nível educacional esteja garantido para quase todos os brasileiros com idade na faixa de compulsoriedade, as altas taxas de retenção, de falta às aulas e de evasão escolar, bem como os baixos níveis de desempenho dos alunos, distorção idade/série mostram que, para a maioria da população, o sistema de educação fundamental não está provendo a formação necessária nem para a participação crítica na sociedade moderna nem a inserção do educando no mundo do trabalho.
ResponderExcluirCom a universalização do ensino, grande parcela da população, está tendo acesso à escola. Porém, embora essencial, não é suficiente para nenhum propósito educacional. A criança e o adolescente devem não só frequentar a escola como também, dentro dela, ter um ensino de qualidade que de fato promova a universalização qualitativa do ensino.
A obra de Patto e o documentário mostram bem o sistema escolar, em relação ao baixo nível do ensino contemporâneo, mostrado no fato de que a escola hoje não recebe apenas alunos provenientes das camadas mais beneficiadas da população.
A democratização da escola, ainda que falsa, trouxe em seu bojo outra clientela e com ela diferenças bastantes acentuada. De repente, não damos aulas só para aqueles que pertencem a um grupo social. Representantes de outros grupos estão sentados nos bancos escolares. Eis o grande dilema e desafio: A escola que temos precisa ser transformada na escola que necessitamos, uma escola que considere a diversidade em sua totalidade, promovendo a inclusão e garantindo o direito de aprendizagem de todos.
As leituras e o documentário reforçam a pertinência do debate de um tema que por vezes é banalizado dentro das escolas. É comum encontrar justificativas prontas e argumentos preconceituosos, que constatam uma impossibilidade inata de aprendizagem dos alunos, mas que pouco problematizam os processos de ensino-aprendizagem e o próprio papel o professor e demais profissionais nesse processo. Muitas vezes, o fracasso escolar é simplificado e encarado como responsabilidade exclusiva, ora dos professores, ora dos alunos e/ou famílias. O caminho trilhado pela pesquisadora, no entanto, aponta em outra direção: o fracasso escolar é produzido cotidianamente na sociedade desigual e reproduzido de forma acrítica nas escolas. Acredito que existem movimentos individuais e coletivos que buscam romper com esses processos de exclusão e acredito também que nós – professores, pedagogos, gestores, mestrandos, pirilampos – fazemos parte desses movimentos.
ResponderExcluirMe deparei, em uma leitura recente, com a seguinte pergunta que tem me mobilizado: Quais são os valores com os quais me comprometo e me identifico? Acreditando que as perguntas as vezes mobilizam muito mais do que as respostas, sigo perguntando: Como tem se constituído minha prática com as crianças que são alunas e alunos da escola? Tenho enxergado e escutado suas infâncias? Percebo meus alunos como sujeitos com percursos diferentes? Tenho feito da escola e da sala de aula um lugar onde eles podem ser crianças?
A palavra criança nos remete a infância, o que nos faz pensar que todo ser humano passa pela infância e pelos processos naturais de desenvolvimento dentro de um “modelo” ideal. Bom seria se fosse assim! Mas a realidade de grande parte da população é outra, atravessada pela miséria, violência, desigualdade social e outras mais que os tornam os desviantes desse “modelo”. O que o documentário e o livro nos fazem refletir é que dentro das escolas essas crianças são rotuladas como fracassadas por não apresentarem o desenvolvimento desejado para sua idade/série, porém esses rótulos se dão com base naquilo que se propõe como objetivo e seus respectivos resultados.
ResponderExcluirNós enquanto educadores não podemos permitir que a carga extraescolar que essa criança carrega seja desconsiderada, pois muitas vezes a falta de oportunidades e as condições em que vivem as impedem de mostrarem seu potencial de possibilidades. Cada aluno é diferente, e precisamos reconhecê-los com suas particularidades em meio a tantas desigualdades.
No Brasil, assim como em países cuja riqueza é concentrada, criou-se o senso comum em que modelos educacionais como o do Japão, são modelos a serem seguidos. Dado que os maiores índices de produtividade educacional encontram-se em países cujos fundamentos de ensino-aprendizagem se pautam em organização e eficiência. E nós, de países onde a desigualdade socioeconômica, marcada pela pós-colonização e séculos escravismo, ainda estamos distante de atingir.
ResponderExcluirNo entanto, pouco se fala a respeito do 1º de setembro japonês, dia em que geralmente se inicia o ano letivo. Entre os dias 31 de Agosto e 1º de setembro os índices de suicídio chegam a uma média de 131 pessoas menores de 18 anos. Por trás do “perfeito” modelo construído para evitar o fracasso escolar, estão dados que demonstram que entre 1972 e 2012 cerca de 18 mil crianças cometeram suicídio, sendo esta a principal causa de mortes de pessoas entre 10 e 19 anos no ano de 2014, conforme site da BBC (http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150901_japao_aulas_ebc ).
Esse número é atribuído à extrema exigência a qual estudantes são submetidos, em que desde o jardim de infância é “normal” rotinas de estudos diárias com mais de 12 horas. Onde as práticas pedagógicas estimulam a um intenso treinamento voltado para que estudantes ingressem progressivamente nas melhores instituições de ensino. Tais rotinas impedem pensamentos criativos, estimulam o bullying (que passa despercebido), e a cultura de treinamento se repete em casa para que as crianças não passem pelo fracasso escolar.
Nesse perfil de ensino, o adestramento atropela as subjetividades, ignora possibilidades, e demonstra que um dos “modelos” de uma Educação em prol de extinguir o fracasso escolar provoca tanto terror em crianças e adolescentes, que não se veem em outra alternativa se não o suicídio.
Se for um modelo contrário ao fracasso escolar em que custe a vida de crianças e adolescente ao atingir altos índices de “ranquemanto” internacional, o modelo japonês nos serve. No entanto, se queremos romper com o fracasso escolar, onde sujeitos sejam entendidos como produtores de conhecimento em conjunto, e que este produz a vida, precisamos continuar os trabalhos!
Roberto Márcio da Silveira
Excelente contribuição, Roberto! O que estamos chamando de fracasso escolar? O que estamos considerando qualidade na educação? A escola deve priorizar a meta, o treino para o alcance da meta? Que concepção de conhecimento habita esses enunciados dominantes-reguladores perpetuados pelo senso comum?
ExcluirÉ urgente e necessário a problematização sobre o tema fracasso escolar rompendo com explicações psicologizantes no sentido de efetivar a superação de verdades e simplificações que atuam contra os interesses das classes sociais a que se referem. Tais mecanismos/enunciados reguladores enfraquecem o aprimoramento de práticas e pesquisas sobre os processos de ensino e aprendizagem, perpetuando a ideia de que qualquer desvio do padrão de conduta valorizado pela escola/sociedade é uma patologia. E mais, esse discurso fraturado que concentra a causa do fracasso escolar em fatores sociais externos, em causas sempre buscadas no aluno por fatores biológicos, sociais e psicológicos impedem novos rumos na política, pesquisa e práticas educacionais. É necessário sempre resistir aos mecanismos de regulação dominante movendo o pensamento, provocando rupturas e deslocamentos. As idéias são prisões duradouras, mas não precisamos permanecer nelas para sempre (QUIJANO, 1986).
ResponderExcluirO fracasso escolar é o resultado de um sistema educacional gerador de obstáculos em seus objetivos precípuos. Vem ancorado em um discurso embasado na competência/eficiência, naturalizando assim o fracasso aos olhos de toda a comunidade escolar. Ao não se perceber dentro de um contexto que privilegia seus conhecimentos e culturas, o aluno rebela-se, perdendo o interesse pela escola. A contradição é uma constante no discurso de todos os envolvidos na comunidade escolar e a impessoalidade ergue muros entre a prática docente e o aluno.
ResponderExcluirHoje, em meio aos corredores da escola me deparei com a seguinte fala. “A escola poderia ser um mundo mágico se não fosse o fracasso que é.” Me pergunto se há sentido nessa afirmação. Reflito que nosso modelo de educação foi feito para não funcionar. E então sempre fica a ideia de que a educação está vazia de sentido. Dar sentido é a tarefa mais cansativa e difícil, porque é individual de cada um para um coletivo. Mas é uma das possíveis possibilidades de mudanças. Fracasso é uma interpretação que se faz, do que se faz. Acredito que quando fazemos todo o possível, com a consciência de ter tentado o que era viável, não há fracasso. É preciso reconhecer as pequenas conquistas. Fazer a diferença na vida de um estudante, já é uma coisa e tanto... ainda que isso não apareça nos insensíveis dados estatísticos.
ResponderExcluirRoberto Márcio da Silveira
Hoje, em meio aos corredores da escola me deparei com a seguinte fala. “A escola poderia ser um mundo mágico se não fosse o fracasso que é.” Me pergunto se há sentido nessa afirmação. Reflito que nosso modelo de educação foi feito para não funcionar. E então sempre fica a ideia de que a educação está vazia de sentido. Dar sentido é a tarefa mais cansativa e difícil, porque é individual de cada um para um coletivo. Mas é uma das possíveis possibilidades de mudanças. Fracasso é uma interpretação que se faz, do que se faz. Acredito que quando fazemos todo o possível, com a consciência de ter tentado o que era viável, não há fracasso. É preciso reconhecer as pequenas conquistas. Fazer a diferença na vida de um estudante, já é uma coisa e tanto... ainda que isso não apareça nos insensíveis dados estatísticos.
ResponderExcluirRoberto Márcio da Silveira
Vemos, no decorrer da história, diferentes formas de se compreender a educação. A pedagogia tradicional, o escolanovismo, a pedagogia tecnicista, as teorias racistas, entre outras perspectivas que coexistem e se misturam nas práticas pedagógicas dentro das escolas brasileiras não tem conseguido abarcar a complexidade da realidade educacional brasileira, que por muitos anos, tem vivido a problemática do fracasso escolar.
ResponderExcluirDiversos argumentos continuam vivos na escola para justificar os casos em que os alunos não desenvolvem suas máximas possibilidades dentro do contexto escolar. A culpa do fracasso escolar tem sido atribuída a sujeitos isolados, não sendo considerado todo o contexto social que envolve as condições de ensino e aprendizagem que se coloca aos sujeitos que chegam à escola para aprender.
Esses sujeitos têm sido vítimas de uma ideologia burguesa que continua dominante no decorrer dos anos, defendendo que todos possuem as mesmas oportunidades e o sucesso depende da força de vontade individual de cada sujeito. Todavia, acreditamos que é necessário o rompimento com a tendência dominante e se criem possibilidades que considerem os sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, considerando os contextos que cada aluno vive para compreender a complexidade que o envolve e sejam criadas formas de garantir o acesso a uma educação de qualidade e que promova o desenvolvimento dos alunos.
Em meio à escuridão de práticas e perspectivas que limitam as possibilidades de grande parte da população escolar levando-os ao temível “fracasso escolar”, é necessário que sejam feitos os movimentos de brilho dos pirilampos que acreditam em uma mudança possível dentro das nossas escolas.
Na disciplina Ensino e Aprendizagem e Práticas Inclusivas, ministrada pela professora Drª Andressa Mafezoni, o tema fracasso escolar muito nos indignou e nos instigou.
ResponderExcluirFomos desafiados a continuar lutando...
COMO? Qualificando a PALAVRA...
Para isto, realizamos seminários relacionando as temáticas desenvolvidas na disciplina e as questões que nos inquietam nos nossos cotidianos escolares.
Apresentamos, debatemos, dialogamos, criamos condições para superar fracassos, analisamos dispositivos de poder das políticas macro e micro, fizemos escolhas...
Eis aqui, as escolhas que fizemos dando voz e vez aos nossos grupos de trabalho:
O grupo composto por Aníbal, Elismar, Gabriela e Ione apresentou “O fracasso escolar a partir da narrativa de uma unidade de ensino: um estudo de caso real”;
Nesta mesma abordagem, Charla, Débora, Maria Amélia e Roberta propuseram uma análise “Da produção do fracasso escolar à solicitude pedagógica, o caso Nailton: os dois lados da mesma moeda”;
Na composição de Fernanda, Kelly, Lara e Mariana E. foram apresentados os “Diferentes olhares sobre a diferença”;
A apresentação de Ana Cláudia, Eliana e Nathan pautou “A prática docente em diferentes perspectivas: enrendando à aposta da docência como política de Vida”;
Além de Elson, Francisco “Chicão“ e Roberto que analisaram “A escola como organização de trabalho e lugar de aprendizagem do professor”;
Finalmente, o grupo de Hadassa, Jéssica, Mariana G. e Renata pontuaram sobre “A Psicologia Histórico Cultural e a prática pedagógica”
Com base nestas proposições, realizamos em sala de aula a escrita de um texto, que se materializou a partir das discussões coletivas sobre o artigo de Franco, Libâneo e Pimenta (2011) intitulado “As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento”, cuja produção encerra as postagens acerca do tema infâncias e produção do fracasso escolar...
Na disciplina Ensino e Aprendizagem e Práticas Inclusivas, ministrada pela professora Drª Andressa Mafezoni, o tema fracasso escolar muito nos indignou e nos instigou.
ResponderExcluirFomos desafiados a continuar lutando...
COMO? Qualificando a PALAVRA...
Para isto, realizamos seminários relacionando as temáticas desenvolvidas na disciplina e as questões que nos inquietam nos nossos cotidianos escolares.
Apresentamos, debatemos, dialogamos, criamos condições para superar fracassos, analisamos dispositivos de poder das políticas macro e micro, fizemos escolhas...
Eis aqui, as escolhas que fizemos dando voz e vez aos nossos grupos de trabalho:
O grupo composto por Aníbal, Elismar, Gabriela e Ione apresentou “O fracasso escolar a partir da narrativa de uma unidade de ensino: um estudo de caso real”;
Nesta mesma abordagem, Charla, Débora, Maria Amélia e Roberta propuseram uma análise “Da produção do fracasso escolar à solicitude pedagógica, o caso Nailton: os dois lados da mesma moeda”;
Na composição de Fernanda, Kelly, Lara e Mariana E. foram apresentados os “Diferentes olhares sobre a diferença”;
A apresentação de Ana Cláudia, Eliana e Nathan pautou “A prática docente em diferentes perspectivas: enrendando à aposta da docência como política de Vida”;
Além de Elson, Francisco “Chicão“ e Roberto que analisaram “A escola como organização de trabalho e lugar de aprendizagem do professor”;
Finalmente, o grupo de Hadassa, Jéssica, Mariana G. e Renata pontuaram sobre “A Psicologia Histórico Cultural e a prática pedagógica”
Com base nestas proposições, realizamos em sala de aula a escrita de um texto, que se materializou a partir das discussões coletivas sobre o artigo de Franco, Libâneo e Pimenta (2011) intitulado “As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento”, cuja produção encerra as postagens acerca do tema infâncias e produção do fracasso escolar...